{"id":182945,"date":"2026-03-19T11:38:20","date_gmt":"2026-03-19T14:38:20","guid":{"rendered":"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/?p=182945"},"modified":"2026-03-19T11:42:32","modified_gmt":"2026-03-19T14:42:32","slug":"aposentadoria-compulsoria-como-pena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/aposentadoria-compulsoria-como-pena\/","title":{"rendered":"Aposentadoria compuls\u00f3ria como pena disciplinar de magistrados"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-stf-ao-2-870-agr-df-extincao-constitucional-e-novo-rito-de-responsabilizacao\"><span id=\"stf-ao-2-870-agr-df-extincao-constitucional-e-novo-rito-de-responsabilizacao\">STF \u2014 AO 2.870 AgR\/DF: Extin\u00e7\u00e3o constitucional e novo rito de responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/span><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-1-o-caso-concreto\"><span id=\"1-o-caso-concreto\">1. O caso concreto<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o que envolve o tema aposentadoria compuls\u00f3ria como pena disciplinar de magistrados foi proferida pelo Ministro Fl\u00e1vio Dino, do Supremo Tribunal Federal, em 16 de mar\u00e7o de 2026, nos autos da A\u00e7\u00e3o Origin\u00e1ria 2.870 AgR\/DF.<\/p>\n\n\n\n<p>O voto em 52 p\u00e1ginas est\u00e1 aqui dispon\u00edvel neste <a href=\"https:\/\/noticias.stf.jus.br\/postsnoticias\/relator-proibe-aposentadoria-compulsoria-como-pena-maxima-para-magistrados\">link<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de decis\u00e3o de consider\u00e1vel relev\u00e2ncia pr\u00e1tico dogm\u00e1tica, que, ao mesmo tempo, resolve uma grave quest\u00e3o de procedimento no \u00e2mbito do Conselho Nacional de Justi\u00e7a e promove uma releitura constitucionalmente necess\u00e1ria do sistema de responsabilidade disciplinar da magistratura brasileira.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-1-1-origem-do-litigio\"><span id=\"1-1-origem-do-litigio\">1.1 Origem do lit\u00edgio<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>O lit\u00edgio tem origem na Comarca de Mangaratiba, no Estado do Rio de Janeiro. Um magistrado titular da Vara \u00danica daquela comarca foi submetido a inspe\u00e7\u00e3o pela Corregedoria-Geral do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa inspe\u00e7\u00e3o, foram extra\u00eddos m\u00faltiplos processos administrativos disciplinares, nos quais foram apuradas condutas variadas: morosidade excessiva e injustificada; reten\u00e7\u00e3o de processos no gabinete sem abertura de conclus\u00e3o; irregularidades no julgamento de exce\u00e7\u00f5es de incompet\u00eancia arguidas pela Fazenda Estadual; anota\u00e7\u00e3o da sigla &#8216;PM&#8217; na capa dos autos para identificar demandas envolvendo policiais militares; concess\u00e3o de liminares em favor de policiais militares n\u00e3o residentes na comarca; e direcionamento proposital de a\u00e7\u00f5es \u00e0 vara, com posterior extens\u00e3o dos efeitos de tutelas a litisconsortes ulteriores n\u00e3o contemplados pelo texto legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final dos processos administrativos disciplinares, o TJ-RJ aplicou ao magistrado uma sequ\u00eancia de san\u00e7\u00f5es progressivamente mais graves: pena de censura (por morosidade cartor\u00e1ria), pena de remo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria (por irregularidades em a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas de improbidade envolvendo grupo pol\u00edtico local, sem oitiva pr\u00e9via do Minist\u00e9rio P\u00fablico) e duas penas de aposentadoria compuls\u00f3ria (pelas condutas mais graves relacionadas ao beneficiamento de policiais militares e \u00e0 aus\u00eancia de imparcialidade).<\/p>\n\n\n\n<p>Inconformado, o magistrado ajuizou tr\u00eas revis\u00f5es disciplinares perante o CNJ, objetivando a revers\u00e3o das san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se seguiu no \u00e2mbito do Conselho \u00e9, por si s\u00f3, objeto de escrut\u00ednio constitucional: ao longo de cerca de tr\u00eas anos de tramita\u00e7\u00e3o, as revis\u00f5es foram apreciadas por composi\u00e7\u00f5es distintas, com pedidos de destaque, altera\u00e7\u00f5es regimentais supervenientes, desconsidera\u00e7\u00e3o de votos j\u00e1 computados em favor do requerente e sucessivas quest\u00f5es de ordem \u2014 tudo culminando na decis\u00e3o final do Plen\u00e1rio do CNJ, que julgou improcedentes os pedidos e manteve as san\u00e7\u00f5es aplicadas pelo TJ-RJ.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed a a\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria no STF.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-2-a-competencia-do-stf-e-o-obstaculo-das-deliberacoes-negativas\"><span id=\"2-a-competencia-do-stf-e-o-obstaculo-das-deliberacoes-negativas\">2. A compet\u00eancia do STF e o obst\u00e1culo das delibera\u00e7\u00f5es negativas<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de adentrar os dois fundamentos centrais da decis\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar a quest\u00e3o processual que quase inviabilizou o conhecimento da a\u00e7\u00e3o: a jurisprud\u00eancia do pr\u00f3prio STF consolidou o entendimento de que delibera\u00e7\u00f5es negativas do CNJ \u2014 aquelas que apenas mant\u00eam atos proferidos por outros \u00f3rg\u00e3os, sem inovar na ordem jur\u00eddica \u2014 n\u00e3o atraem a compet\u00eancia origin\u00e1ria da Corte Suprema prevista no artigo 102, inciso I, al\u00ednea &#8216;r&#8217;, da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, o STF definiu, no julgamento conjunto da ADI 4.412, da Pet 4.770 e da Rcl 33.459 (DJe 2021), que det\u00e9m compet\u00eancia exclusiva para processar e julgar todas as a\u00e7\u00f5es ajuizadas contra decis\u00f5es do CNJ e do CNMP proferidas no exerc\u00edcio de suas compet\u00eancias constitucionais. Por\u00e9m, em precedentes subsequentes (AO 2802 AgR, rel. Min. Fachin; AO 2681 AgR, rel. Min. Toffoli; AO 2855 AgR, rel. Min. Dino), a Corte firmou que esse alcance n\u00e3o abrange delibera\u00e7\u00f5es puramente negativas, assim entendidas aquelas que se limitam a manter a situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica preexistente sem substituir o ato impugnado.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso, a decis\u00e3o monocr\u00e1tica origin\u00e1ria havia julgado improcedentes os pedidos exatamente por esse fundamento. O ministro relator, ao reconsiderar sua pr\u00f3pria decis\u00e3o por ocasi\u00e3o do agravo regimental, admitiu que a exist\u00eancia de flagrante ilegalidade ou injuridicidade supera o \u00f3bice da natureza negativa da delibera\u00e7\u00e3o, permitindo o controle excepcional pelo STF. \u00c9 o que a jurisprud\u00eancia consolidou desde a AO 1789 (rel. Min. Barroso, 2018): a interven\u00e7\u00e3o do STF nos atos do CNJ somente se justifica em hip\u00f3teses de inobserv\u00e2ncia do devido processo legal, exorbit\u00e2ncia de compet\u00eancias ou injuridicidade manifesta.<\/p>\n\n\n\n<p>Identificadas justamente essas hip\u00f3teses \u2014 e em duas frentes distintas, como se ver\u00e1 \u2014, a a\u00e7\u00e3o foi conhecida e julgada, com a reconsidera\u00e7\u00e3o integral da decis\u00e3o agravada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF.jpeg\" alt=\"STF\" class=\"wp-image-79103\" style=\"width:379px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF.jpeg 1024w, https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF-300x225.jpeg 300w, https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF-768x576.jpeg 768w, https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF-380x285.jpeg 380w, https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF-800x600.jpeg 800w, https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/09172707\/STF-150x113.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-3-primeiro-fundamento-violacao-ao-devido-processo-legal-no-cnj\"><span id=\"3-primeiro-fundamento-violacao-ao-devido-processo-legal-no-cnj\">3. Primeiro fundamento: viola\u00e7\u00e3o ao devido processo legal no CNJ<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro pilar da decis\u00e3o do Ministro Dino repousa sobre o reconhecimento de que a tramita\u00e7\u00e3o das revis\u00f5es disciplinares no Conselho Nacional de Justi\u00e7a foi marcada por v\u00edcios procedimentais suficientemente graves para caracterizar inobserv\u00e2ncia ao princ\u00edpio do devido processo legal, constitucionalmente assegurado pelo artigo 5\u00ba, inciso LIV, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-3-1-o-tumulto-procedimental-e-a-aposentadoria-compulsoria\"><span id=\"3-1-o-tumulto-procedimental-e-a-aposentadoria-compulsoria\">3.1 O tumulto procedimental e a aposentadoria compuls\u00f3ria<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o central, neste ponto, diz respeito ao tratamento conferido aos votos j\u00e1 proferidos por conselheiros cujos mandatos se encerraram no curso dos julgamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja: as revis\u00f5es disciplinares foram inicialmente pautadas em sess\u00e3o virtual em outubro de 2021. Naquela oportunidade, formou-se maioria favor\u00e1vel ao requerente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que, no \u00faltimo dia da sess\u00e3o, a ent\u00e3o Corregedora Nacional de Justi\u00e7a \u2014 que j\u00e1 havia votado e restado vencida \u2014 formulou pedido de destaque para julgamento presencial. Esse pedido, nos termos do regimento ent\u00e3o vigente, teve por efeito a desconsidera\u00e7\u00e3o de todos os votos proferidos em ambiente virtual, inclusive os dos conselheiros cujos mandatos se encerraram dias ap\u00f3s aquela sess\u00e3o, o que inclu\u00eda o relator origin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal situa\u00e7\u00e3o gerou o que o pr\u00f3prio ministro relator qualificou de &#8216;tumulto procedimental&#8217;: sucessivas quest\u00f5es de ordem, altera\u00e7\u00f5es na composi\u00e7\u00e3o do colegiado, mudan\u00e7as de relatoria, pedidos de vista, novas teses inauguradas no curso do julgamento e, por fim, a aplica\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica das normas regimentais \u2014 ora considerando votos anteriores, ora desconsiderando-os, a depender do resultado que cada crit\u00e9rio produzia no caso concreto.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-adi-5399-plenario-9-6-2022\"><span id=\"adi-5399-plenario-9-6-2022\">ADI 5399 (Plen\u00e1rio, 9\/6\/2022)<\/span><\/h4>\n\n\n\n<p>\u00c9 de se notar que o STF, ao julgar quest\u00e3o de ordem na ADI 5399 (Plen\u00e1rio, 9\/6\/2022), fixou o entendimento de que s\u00e3o v\u00e1lidos os votos proferidos por ministro posteriormente aposentado, mesmo quando ocorra pedido de destaque em sess\u00e3o posterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia, portanto, um par\u00e2metro consolidado na pr\u00f3pria Corte Suprema que o CNJ desconsiderou ao adotar sistem\u00e1tica diametralmente oposta. Nesse sentido, a decis\u00e3o do Plen\u00e1rio do CNJ no in\u00edcio do julgamento presencial (19\u00aa Sess\u00e3o Ordin\u00e1ria de 2023), que determinou expressamente a desconsidera\u00e7\u00e3o dos votos proferidos em sess\u00f5es virtuais e a inaplicabilidade do artigo 118-A, \u00a76\u00ba-B, do RICNJ (que preservava votos de conselheiros que deixassem o cargo), est\u00e1 em contraste com o entendimento firmado pelo STF.<\/p>\n\n\n\n<p>As sucessivas mudan\u00e7as de composi\u00e7\u00e3o e qu\u00f3rum, com constantes altera\u00e7\u00f5es de procedimentos, impediram um julgamento coerente e seguro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, o magistrado submeteu-se a pelo menos tr\u00eas conjuntos distintos de julgadores ao longo de tr\u00eas anos, com a neutraliza\u00e7\u00e3o de duas maiorias favor\u00e1veis a ele, at\u00e9 que se consolidasse, na composi\u00e7\u00e3o definitiva, o julgamento de improced\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse percurso, independentemente do m\u00e9rito das acusa\u00e7\u00f5es, coloca em xeque a higidez do processo decis\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-3-2-consequencia-processual-nulidade-ab-initio\"><span id=\"3-2-consequencia-processual-nulidade-ab-initio\">3.2 Consequ\u00eancia processual: nulidade <em>ab initio<\/em><\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>Diante desse quadro, o Ministro Dino declarou a nulidade do julgamento do CNJ a partir de sua origem, determinando a rean\u00e1lise plena das revis\u00f5es disciplinares.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha pela nulidade total, e n\u00e3o por aproveitamento de atos anteriores, justifica-se pragmaticamente: a ampla renova\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o do Conselho, ao longo do tempo decorrido, torna a rean\u00e1lise desde o in\u00edcio a solu\u00e7\u00e3o mais consent\u00e2nea com a seguran\u00e7a jur\u00eddica e com a preserva\u00e7\u00e3o das garantias do contradit\u00f3rio e da ampla defesa \u2014 que devem ser asseguradas ao magistrado diante do novo cen\u00e1rio constitucional estabelecido pela pr\u00f3pria decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-4-segundo-fundamento-extincao-constitucional-da-aposentadoria-compulsoria-como-sancao-disciplinar\"><span id=\"4-segundo-fundamento-extincao-constitucional-da-aposentadoria-compulsoria-como-sancao-disciplinar\">4. Segundo fundamento: extin\u00e7\u00e3o constitucional da aposentadoria compuls\u00f3ria como san\u00e7\u00e3o disciplinar<\/span><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-4-1-a-natureza-juridica-da-aposentadoria\"><span id=\"4-1-a-natureza-juridica-da-aposentadoria\">4.1 A natureza jur\u00eddica da aposentadoria<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>O segundo e mais impactante fundamento da decis\u00e3o parte de uma premissa de \u00edndole conceitual.<\/p>\n\n\n\n<p>A aposentadoria, nos termos do artigo 7\u00ba, inciso XXIV, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, \u00e9 direito fundamental do trabalhador, consistente em benef\u00edcio previdenci\u00e1rio que visa garantir condi\u00e7\u00f5es dignas de vida quando o exerc\u00edcio laboral j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel em raz\u00e3o da idade ou de incapacidade permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se, portanto, de um direito \u2014 n\u00e3o de uma puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ministro Dino registra que j\u00e1 havia, de longa data, um estranhamento conceitual em transformar um direito em instrumento punitivo. Esse estranhamento, como ele afirma,<em> &#8216;com a vota\u00e7\u00e3o das Emendas Constitucionais n\u00ba 20\/1998 e n\u00ba 103\/2019, transformou-se em impossibilidade jur\u00eddica&#8217;.<\/em> \u00c9 nessa passagem da estranheza \u00e0 impossibilidade que reside o argumento central.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-4-2-o-regime-constitucional-dos-magistrados-e-a-ec-103-2019\"><span id=\"4-2-o-regime-constitucional-dos-magistrados-e-a-ec-103-2019\">4.2 O regime constitucional dos magistrados e a EC 103\/2019<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>Por for\u00e7a do artigo 93, inciso VI, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal \u2014 com reda\u00e7\u00e3o dada pela EC 20\/1998 \u2014, a aposentadoria dos magistrados obedece \u00e0s regras estabelecidas no artigo 40 do texto constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta feita, esse dispositivo, que regula o Regime Pr\u00f3prio de Previd\u00eancia Social dos servidores titulares de cargos efetivos, sofreu profunda altera\u00e7\u00e3o com a Emenda Constitucional 103\/2019, a chamada Reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a nova reda\u00e7\u00e3o do artigo 40 n\u00e3o prev\u00ea, em nenhum de seus dispositivos, a transfer\u00eancia compuls\u00f3ria para a inatividade com recebimento de proventos como san\u00e7\u00e3o quando do cometimento de infra\u00e7\u00e3o disciplinar grave.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, as hip\u00f3teses de aposentadoria nele contempladas s\u00e3o: por incapacidade permanente para o trabalho (\u00a71\u00ba, I); compulsoriamente, aos 70 ou 75 anos de idade (\u00a71\u00ba, II); e voluntariamente, preenchidos os requisitos de contribui\u00e7\u00e3o e idade (\u00a71\u00ba, III). Nenhuma delas tem natureza sancionat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais relevante, por\u00e9m, \u00e9 o que se passou com os dispositivos que anteriormente previam a aposentadoria compuls\u00f3ria como penalidade administrativa. O quadro comparativo a seguir, extra\u00eddo da pr\u00f3pria decis\u00e3o, ilustra com clareza a mudan\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-quadro-comparativo\"><span id=\"quadro-comparativo\">Quadro comparativo<\/span><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-stripes\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td><strong>Reda\u00e7\u00e3o pela EC n\u00ba 45\/2004<\/strong><\/td><td><strong>Reda\u00e7\u00e3o pela EC n\u00ba 103\/2019<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 93, VIII \u2014 o ato de remo\u00e7\u00e3o, disponibilidade e aposentadoria do magistrado, por interesse p\u00fablico, fundar-se-\u00e1 em decis\u00e3o por voto da maioria absoluta do respectivo tribunal ou do Conselho Nacional de Justi\u00e7a, assegurada ampla defesa.<\/td><td>Art. 93, VIII \u2014 o ato de remo\u00e7\u00e3o ou de disponibilidade do magistrado, por interesse p\u00fablico, fundar-se-\u00e1 em decis\u00e3o por voto da maioria absoluta do respectivo tribunal ou do Conselho Nacional de Justi\u00e7a, assegurada ampla defesa. (Reda\u00e7\u00e3o dada pela EC 103\/2019)<\/td><\/tr><tr><td>Art. 103-B, \u00a74\u00ba, III \u2014 podendo avocar processos disciplinares em curso e determinar a remo\u00e7\u00e3o, a disponibilidade ou a aposentadoria com subs\u00eddios ou proventos proporcionais ao tempo de servi\u00e7o e aplicar outras san\u00e7\u00f5es administrativas, assegurada ampla defesa.<\/td><td>Art. 103-B, \u00a74\u00ba, III \u2014 podendo avocar processos disciplinares em curso, determinar a remo\u00e7\u00e3o ou a disponibilidade e aplicar outras san\u00e7\u00f5es administrativas, assegurada ampla defesa. (Reda\u00e7\u00e3o dada pela EC 103\/2019)<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Nessa linha, como se constata da leitura comparativa, a EC 103\/2019 suprimiu, tanto do artigo 93, inciso VIII, quanto do artigo 103-B, \u00a74\u00ba, inciso III, qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 aposentadoria compuls\u00f3ria como mecanismo disciplinar. A altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi silenciosa: houve supress\u00e3o textual deliberada e inequ\u00edvoca dos termos correspondentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o Ministro Relator recorre a um argumento hermen\u00eautico de peso para recha\u00e7ar qualquer tentativa de minimizar a supress\u00e3o: <em>&#8216;Se n\u00e3o h\u00e1 palavra desprovida de sentido sem\u00e2ntico na Constitui\u00e7\u00e3o, o mesmo se pode dizer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s supress\u00f5es que se processam por meio das Emendas Constitucionais&#8217;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Logo, a l\u00f3gica \u00e9 precisa \u2014 se a inser\u00e7\u00e3o de um termo pelo poder constituinte derivado tem significado, a supress\u00e3o desse mesmo termo tamb\u00e9m o tem. Desconsiderar a exclus\u00e3o equivale a ignorar a vontade do legislador constituinte reformador, o que \u00e9 inadmiss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-4-3-o-principio-da-moralidade-sistema-de-responsabilizacao-e-aposentadoria-compulsoria\"><span id=\"4-3-o-principio-da-moralidade-sistema-de-responsabilizacao-e-aposentadoria-compulsoria\">4.3 O princ\u00edpio da moralidade, sistema de responsabiliza\u00e7\u00e3o e aposentadoria compuls\u00f3ria<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>Ademais, extinta a aposentadoria compuls\u00f3ria punitiva, o Ministro Dino enfrenta uma quest\u00e3o que poderia parecer consequ\u00eancia indesejada da conclus\u00e3o anterior: a de que os magistrados ficariam imunes a um sistema efetivo de responsabilidade disciplinar nos casos de maior gravidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 afastada com a conjuga\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da moralidade administrativa e das garantias constitucionais da magistratura.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, a vitaliciedade \u2014 garantia prevista no artigo 95, inciso I, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal \u2014 n\u00e3o \u00e9 absoluta. Ela impede a perda do cargo por ato administrativo unilateral, mas n\u00e3o impede a perda do cargo por senten\u00e7a judicial transitada em julgado.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, nos casos de infra\u00e7\u00f5es graves, o caminho constitucionalmente correto n\u00e3o \u00e9 a aposentadoria compuls\u00f3ria \u2014 que era, em si, uma fic\u00e7\u00e3o punitiva \u2014, mas a a\u00e7\u00e3o judicial conducente \u00e0 perda do cargo.<\/p>\n\n\n\n<p>A novidade operacional trazida pela decis\u00e3o est\u00e1 no rito para tanto: se o CNJ, ao reanalisar o caso, concluir pela gravidade m\u00e1xima das infra\u00e7\u00f5es, dever\u00e1 encaminhar os autos \u00e0 Advocacia-Geral da Uni\u00e3o para que esta, na condi\u00e7\u00e3o de representante judicial do pr\u00f3prio CNJ, aju\u00edze a a\u00e7\u00e3o de perda de cargo diretamente perante o Supremo Tribunal Federal, com fundamento no artigo 102, inciso I, al\u00ednea &#8216;r&#8217;, da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, apenas o STF tem compet\u00eancia para manter ou substituir o ju\u00edzo administrativo do CNJ \u2014 deriva\u00e7\u00e3o direta do princ\u00edpio do paralelismo das formas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-5-sintese-do-sistema-sancionatorio-vigente\"><span id=\"5-sintese-do-sistema-sancionatorio-vigente\">5. S\u00edntese do sistema sancionat\u00f3rio vigente<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>Com a decis\u00e3o proferida na AO 2870, o quadro das san\u00e7\u00f5es disciplinares aplic\u00e1veis aos magistrados passa a ser o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-stripes\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td><strong>San\u00e7\u00e3o administrativa<\/strong><\/td><td><strong>Fundamento (LOMAN \/ CF)<\/strong><\/td><td><strong>Situa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s EC 103\/2019<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Advert\u00eancia<\/td><td>Art. 44, I, LOMAN<\/td><td><strong>\u2713<\/strong><strong> V\u00e1lida<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Censura<\/td><td>Art. 44, II, LOMAN<\/td><td><strong>\u2713<\/strong><strong> V\u00e1lida<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Remo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria<\/td><td>Art. 93, VIII, CF + LOMAN<\/td><td><strong>\u2713<\/strong><strong> V\u00e1lida<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Disponibilidade<\/td><td>Art. 93, VIII, CF + LOMAN<\/td><td><strong>\u2713<\/strong><strong> V\u00e1lida<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Aposentadoria compuls\u00f3ria punitiva<\/td><td>Art. 93, VIII e Art. 103-B, \u00a74\u00ba, III \u2014 revogados pela EC 103\/2019<\/td><td><strong>\u2717<\/strong><strong> Extinta<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Perda do cargo (infra\u00e7\u00f5es graves)<\/td><td>Art. 95, I, CF \u2014 depende de a\u00e7\u00e3o judicial perante o STF (vitaliciedade)<\/td><td><strong>\u2713<\/strong><strong> V\u00e1lida \u2014 via AGU\/STF<\/strong><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Desa maneira, o fluxo processual para a responsabiliza\u00e7\u00e3o nos casos de infra\u00e7\u00f5es de m\u00e1xima gravidade, por sua vez, segue a seguinte l\u00f3gica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-stripes\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td><strong>Etapa<\/strong><\/td><td><strong>Ato<\/strong><\/td><td><strong>\u00d3rg\u00e3o respons\u00e1vel<\/strong><\/td><\/tr><tr><td><strong>1\u00aa<\/strong><\/td><td>Instaura\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o do PAD; aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00e3o administrativa pelo tribunal de origem<\/td><td>Tribunal de Justi\u00e7a (TJ)<\/td><\/tr><tr><td><strong>2\u00aa<\/strong><\/td><td>Revis\u00e3o disciplinar: reaprecia\u00e7\u00e3o dos fatos e san\u00e7\u00f5es; eventual absolvi\u00e7\u00e3o, aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00e3o v\u00e1lida ou encaminhamento \u00e0 AGU<\/td><td>CNJ<\/td><\/tr><tr><td><strong>3\u00aa<\/strong><\/td><td>Propositura de a\u00e7\u00e3o judicial de perda do cargo (art. 95, I, CF), com tr\u00e2nsito em julgado obrigat\u00f3rio, em nome do CNJ<\/td><td>AGU (em representa\u00e7\u00e3o do CNJ)<\/td><\/tr><tr><td><strong>4\u00aa<\/strong><\/td><td>Julgamento da a\u00e7\u00e3o: \u00fanico \u00f3rg\u00e3o com compet\u00eancia para manter ou substituir o ju\u00edzo administrativo do CNJ (art. 102, I, r, CF)<\/td><td>STF<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-6-a-proibicao-da-reformatio-in-pejus-e-o-caso-concreto\"><span id=\"6-a-proibicao-da-reformatio-in-pejus-e-o-caso-concreto\">6. A proibi\u00e7\u00e3o da<em> reformatio in pejus<\/em> e o caso concreto<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>Entretanto, um ponto de grande relev\u00e2ncia pr\u00e1tica, abordado na decis\u00e3o, diz respeito \u00e0 possibilidade de que a anula\u00e7\u00e3o do julgamento do CNJ e a eventual perda do cargo representem <em>reformatio in pejus<\/em> em desfavor do magistrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, a san\u00e7\u00e3o anterior era de aposentadoria compuls\u00f3ria \u2014 modalidade que, conquanto punitiva, permitia ao magistrado a percep\u00e7\u00e3o de proventos. A perda do cargo \u00e9, em tese, san\u00e7\u00e3o mais severa.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ministro Dino afasta a alega\u00e7\u00e3o por tr\u00eas fundamentos complementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, porque a rean\u00e1lise das revis\u00f5es disciplinares pelo CNJ desde o in\u00edcio assegura ao autor o pleno exerc\u00edcio do contradit\u00f3rio e da ampla defesa, abrindo espa\u00e7o para que apresente novas considera\u00e7\u00f5es sobre o caso \u00e0 luz do novo marco constitucional estabelecido pela pr\u00f3pria decis\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, porque o reconhecimento da inexist\u00eancia da aposentadoria compuls\u00f3ria punitiva \u00e9 mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica, cognosc\u00edvel de of\u00edcio \u2014 a aplica\u00e7\u00e3o de uma san\u00e7\u00e3o inexistente \u00e9, por si s\u00f3, absolutamente nula, de modo que a declara\u00e7\u00e3o dessa nulidade n\u00e3o pode ser interpretada como agravamento da situa\u00e7\u00e3o do r\u00e9u, mas como restabelecimento da legalidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, porque eventual perda do cargo decorreria de futura a\u00e7\u00e3o judicial perante o STF \u2014 n\u00e3o de decis\u00e3o administrativa \u2014, procedimento que ter\u00e1 l\u00f3gica e fundamenta\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias, com ampla possibilidade de defesa do magistrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Destarte, n\u00e3o h\u00e1 viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da proibi\u00e7\u00e3o da <em>reformatio in pejus<\/em> pela simples raz\u00e3o de que a decis\u00e3o n\u00e3o majora uma puni\u00e7\u00e3o anteriormente fixada: ela reconhece que a puni\u00e7\u00e3o aplicada n\u00e3o tinha mais fundamento constitucional e remete o caso ao iter correto, no qual o resultado pode ser a absolvi\u00e7\u00e3o, a aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00e3o administrativa v\u00e1lida ou a instaura\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o judicial de perda do cargo \u2014 esta \u00faltima a cargo do STF.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-7-jurisprudencia-correlata\"><span id=\"7-jurisprudencia-correlata\">7. Jurisprud\u00eancia correlata<\/span><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-stripes\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><td><strong>Precedente<\/strong><\/td><td><strong>Tese fixada<\/strong><\/td><td><strong>Rela\u00e7\u00e3o com o caso<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>ADI 5399 (STF, 2022)<\/td><td>Validade do voto proferido por ministro posteriormente aposentado, mesmo em caso de destaque em sess\u00e3o posterior \u00e0 sua aposentadoria.<\/td><td>Par\u00e2metro violado pelo CNJ ao desconsiderar votos de conselheiros que deixaram o cargo.<\/td><\/tr><tr><td>ADI 4412 \/ Pet 4770 \/ Rcl 33.459 (STF, 2021)<\/td><td>Compet\u00eancia exclusiva do STF para processar e julgar todas as a\u00e7\u00f5es contra decis\u00f5es do CNJ e CNMP no exerc\u00edcio de suas compet\u00eancias constitucionais (art. 102, I, r, CF).<\/td><td>Baliza da compet\u00eancia origin\u00e1ria do STF para julgar a AO 2870.<\/td><\/tr><tr><td>AO 1789 (STF, 2018, rel. Min. Barroso)<\/td><td>Interven\u00e7\u00e3o do STF sobre atos do CNJ somente em casos de: (i) inobserv\u00e2ncia do devido processo legal; (ii) exorbit\u00e2ncia de compet\u00eancias; (iii) injuridicidade ou manifesta irrazoabilidade.<\/td><td>Crit\u00e9rios que autorizaram a revis\u00e3o da decis\u00e3o do CNJ no caso concreto.<\/td><\/tr><tr><td>AO 2802 AgR (STF, 2024, rel. Min. Fachin)<\/td><td>STF n\u00e3o possui compet\u00eancia origin\u00e1ria para delibera\u00e7\u00f5es negativas do CNJ que apenas mant\u00eam atos de outros \u00f3rg\u00e3os sem inovar na ordem jur\u00eddica.<\/td><td>Obst\u00e1culo processual superado no caso por configura\u00e7\u00e3o de flagrante ilegalidade.<\/td><\/tr><tr><td>AO 2870 AgR (STF, 2026, rel. Min. Dino)<\/td><td>EC 103\/2019 extinguiu o fundamento constitucional da aposentadoria compuls\u00f3ria como san\u00e7\u00e3o disciplinar a magistrados. Infra\u00e7\u00f5es graves devem ser punidas com perda do cargo, via a\u00e7\u00e3o judicial perante o STF.<\/td><td>Decis\u00e3o objeto do presente estudo.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-8-a-ciencia-ao-presidente-do-cnj-e-o-sistema-de-responsabilizacao\"><span id=\"8-a-ciencia-ao-presidente-do-cnj-e-o-sistema-de-responsabilizacao\">8. A ci\u00eancia ao presidente do CNJ e o sistema de responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos efeitos diretos sobre o caso concreto, a decis\u00e3o tem uma dimens\u00e3o institucional relevante: o Ministro Dino determinou que fosse dada ci\u00eancia ao Presidente do Conselho Nacional de Justi\u00e7a, Ministro Edson Fachin, para que \u2014 caso considerasse cab\u00edvel \u2014 avaliasse a revis\u00e3o do sistema de responsabilidade disciplinar no \u00e2mbito do Poder Judici\u00e1rio, diante da extin\u00e7\u00e3o da aposentadoria compuls\u00f3ria como penalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa provid\u00eancia n\u00e3o \u00e9 meramente protocolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque, ela sinaliza que a extin\u00e7\u00e3o de um instrumento sancionat\u00f3rio relevante \u2014 ainda que constitucionalmente necess\u00e1ria \u2014 cria lacuna operacional que precisa ser endere\u00e7ada. O CNJ poder\u00e1, no exerc\u00edcio de suas compet\u00eancias normativas (art. 103-B, \u00a74\u00ba, I, CF), regulamentar o encaminhamento de casos graves \u00e0 AGU e ao STF, tornando esse rito mais \u00e1gil e previs\u00edvel \u2014 o que o pr\u00f3prio ministro relator destaca ao mencionar a necessidade de um rito &#8216;adequado ao princ\u00edpio da razo\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o do processo&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-9-relevancia-para-concursos-juridicos\"><span id=\"9-relevancia-para-concursos-juridicos\">9. Relev\u00e2ncia para concursos jur\u00eddicos<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o proferida na AO 2870 \u00e9 de alta probabilidade de cobran\u00e7a em concursos para a magistratura, o Minist\u00e9rio P\u00fablico, a Advocacia P\u00fablica, a Defensoria P\u00fablica, a AGU e o Exame da OAB, com maior \u00eanfase nas disciplinas de Direito Constitucional, Direito Administrativo e Organiza\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio. Os pontos de maior incid\u00eancia s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>San\u00e7\u00f5es disciplinares dos magistrados: antes e depois da EC 103\/2019.<\/li>\n\n\n\n<li>Garantia da vitaliciedade (art. 95, I, CF) e suas exce\u00e7\u00f5es: perda do cargo apenas por senten\u00e7a judicial transitada em julgado.<\/li>\n\n\n\n<li>Compet\u00eancias do CNJ (art. 103-B, \u00a74\u00ba, CF): controle administrativo e disciplinar; limites das san\u00e7\u00f5es administrativas.<\/li>\n\n\n\n<li>Compet\u00eancia origin\u00e1ria do STF (art. 102, I, r, CF): controle dos atos do CNJ; delibera\u00e7\u00f5es negativas x delibera\u00e7\u00f5es positivas; hip\u00f3teses excepcionais de interven\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Princ\u00edpio do devido processo legal (art. 5\u00ba, LIV, CF): aplica\u00e7\u00e3o em processos administrativos disciplinares; consequ\u00eancias da inobserv\u00e2ncia.<\/li>\n\n\n\n<li><em>Reformatio in pejus<\/em>: limites e exce\u00e7\u00f5es na esfera administrativa disciplinar.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-9-1-questao-de-fixacao-sobre-aposentadoria-compulsoria\"><span id=\"9-1-questao-de-fixacao-sobre-aposentadoria-compulsoria\">9.1 Quest\u00e3o de fixa\u00e7\u00e3o sobre aposentadoria compuls\u00f3ria<\/span><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>QUEST\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com base na decis\u00e3o proferida pelo STF na AO 2.870 AgR\/DF (rel. Min. Fl\u00e1vio Dino, 16\/03\/2026), julgue o item abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;A Emenda Constitucional n\u00ba 103\/2019 revogou implicitamente a previs\u00e3o da aposentadoria compuls\u00f3ria como san\u00e7\u00e3o disciplinar a magistrados, de modo que, a partir de sua promulga\u00e7\u00e3o, condutas graves praticadas por ju\u00edzes devem ser punidas, em sede administrativa, com a pena de disponibilidade, \u00fanico instrumento sancionat\u00f3rio que ainda permite o afastamento do magistrado do exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es sem necessidade de a\u00e7\u00e3o judicial.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><mark class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>Gabarito: ERRADO<\/strong> <\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Justificativa: O enunciado cont\u00e9m dois equ\u00edvocos t\u00e9cnicos. O primeiro diz respeito ao car\u00e1ter da revoga\u00e7\u00e3o: segundo o Min. Fl\u00e1vio Dino, a EC 103\/2019 n\u00e3o revogou implicitamente, mas expressamente, ao suprimir dos artigos 93, VIII e 103-B, \u00a74\u00ba, III, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal toda refer\u00eancia \u00e0 aposentadoria compuls\u00f3ria como instrumento punitivo. N\u00e3o h\u00e1 que se falar em revoga\u00e7\u00e3o t\u00e1cita quando o texto emendado simplesmente excluiu os termos correspondentes. <\/p>\n\n\n\n<p>O segundo equ\u00edvoco reside na indica\u00e7\u00e3o da disponibilidade como \u00fanico mecanismo de afastamento sem a\u00e7\u00e3o judicial: a disponibilidade \u00e9, de fato, san\u00e7\u00e3o v\u00e1lida e ainda prevista no ordenamento, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico instrumento. A remo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria tamb\u00e9m subsiste. Ademais, a decis\u00e3o do STF \u00e9 enf\u00e1tica ao afirmar que, para infra\u00e7\u00f5es de m\u00e1xima gravidade, a resposta adequada \u00e9 a perda do cargo, a qual, em raz\u00e3o da vitaliciedade (art. 95, I, CF), exige a\u00e7\u00e3o judicial proposta pela AGU perante o pr\u00f3prio STF \u2014 e n\u00e3o mera decis\u00e3o administrativa. O item, portanto, est\u00e1 errado em ambas as premissas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-quer-saber-tudo-sobre-concursos-previstos-confira-nossos-artigos\"><span id=\"quer-saber-tudo-sobre-concursos-previstosconfira-nossos-artigos\">Quer saber tudo sobre concursos previstos?<br>Confira nossos artigos!<\/span><\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/concursos-abertos-carreiras-juridicas\/\" target=\"_blank\" ><strong>Concursos jur\u00eddicos abertos<\/strong><\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/cj.estrategia.com\/portal\/concursos-juridicos-2026-prepare-se-para-os-proximos-editais\/\" target=\"_blank\" ><strong>Concursos Jur\u00eddicos 2026<\/strong><\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"STF \u2014 AO 2.870 AgR\/DF: Extin\u00e7\u00e3o constitucional e novo rito de responsabiliza\u00e7\u00e3o 1. 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